O que fica por dizer no trabalho

Há coisas que pensamos dizer no trabalho e acabamos por guardar. Uma dúvida sobre uma decisão. A sensação de que um prazo não é possível. A necessidade de pedir ajuda. O incómodo com a forma como fomos tratados. Às vezes, até algo mais simples: dizer que estamos cansados ou que gostaríamos de participar num projeto.

Podemos escolher outro momento, procurar outras palavras ou concluir que não vale a pena abrir aquele assunto. Fazemos isto em muitas relações. O trabalho, porém, dá um peso particular a estas escolhas. Passamos grande parte dos nossos dias com pessoas de quem dependemos e com quem precisamos de continuar a trabalhar depois de uma conversa difícil.

O que fica por dizer nem sempre é aquilo que mais receamos revelar. Pode ser aquilo que não sabemos se encontrará lugar.

Numa reunião, por exemplo, alguém percebe uma dificuldade numa proposta que está a ser discutida. Olha à volta. A decisão parece estar a avançar, ninguém manifesta reservas e quem a apresentou está claramente empenhado nela. A pessoa pode falar, mas já não está apenas a pensar no problema que identificou. Está a pensar também no que a sua intervenção poderá significar para os outros: estará a contribuir ou a criar um obstáculo? Será compreendida ou vista como alguém que resiste?

Por vezes, fala. Outras vezes, deixa a reunião terminar e comenta a sua preocupação com um colega. Ali, as palavras aparecem mais facilmente. Não necessariamente porque falte coragem para as dizer em público, mas porque, entre pessoas de confiança, é possível pensar em voz alta sem ter de defender de imediato cada frase.

Esta diferença entre o que se diz numa reunião e o que se diz depois pode revelar alguma coisa sobre as relações de trabalho. Pode haver dúvidas ainda pouco claras, que precisam de uma conversa privada antes de serem partilhadas. Mas pode acontecer também que as pessoas saibam exatamente o que pensam e não sintam que existe espaço para o dizer onde isso faria diferença.

Quando falar também nos expõe

Discordar é uma das formas mais visíveis dessa exposição. Uma observação sobre o trabalho pode ser recebida como uma crítica à pessoa que tomou uma decisão. Uma pergunta pode parecer falta de confiança. E, quando quem está do outro lado tem poder sobre a nossa avaliação ou sobre as oportunidades que recebemos, esta possibilidade não é vivida de forma abstrata.

Mas não é só a discordância que nos expõe. Dizer «não estou a conseguir» pode tocar na imagem de competência que construímos. Pedir ajuda pode trazer o receio de passar a ser visto como alguém que não aguenta. Dizer que uma forma de trabalhar nos está a fazer mal pode abrir uma conversa cujo rumo não controlamos.

Até expressar um desejo pode ser difícil. Mostrar interesse por outra função, pedir mais responsabilidade ou admitir que queremos sair de uma equipa torna visível uma parte de nós que os outros poderão interpretar. Por isso, o silêncio não se organiza apenas à volta do medo de contrariar. Também pode nascer do desejo de preservar o lugar que temos.

Nem sempre essa reserva é um problema. Há coisas que precisam de tempo e relações que ainda não oferecem confiança suficiente para certas conversas. Poder escolher o que partilhamos é importante. A dificuldade surge quando começamos a sentir que, para continuarmos bem naquele lugar, temos de deixar cada vez mais coisas de fora.

O que vamos aprendendo a não dizer

Há aprendizagens que acontecem sem que ninguém as ensine diretamente. Observamos como uma preocupação é recebida, se uma dúvida pode ser retomada, o que acontece a quem contraria uma proposta. Repararmos que alguns assuntos são escutados com atenção e outros encerrados depressa.

Uma pessoa pode tentar encontrar a ocasião certa para falar. Talvez reformule o que quer dizer, reúna exemplos, espere por uma conversa individual. Se, repetidamente, a sua perspetiva não encontra lugar, algo pode começar a mudar. Já não se trata apenas de escolher melhor as palavras. Começa a perguntar-se para quê dizê-las.

Ser ouvido não significa ver todas as nossas sugestões aceites. Quem decide pode ter razões que desconhecemos ou responsabilidades que não partilhamos. Mas faz diferença perceber que aquilo que dissemos foi realmente considerado, mesmo quando se segue outro caminho.

Quando essa possibilidade desaparece, algumas pessoas continuam a cumprir, mas deixam de trazer ideias, reservas ou perguntas que antes partilhariam. Outras procuram noutro lugar uma relação diferente com o trabalho. Há também quem permaneça e vá ficando mais calado, sem que seja fácil identificar um momento preciso em que isso aconteceu.

Por fora, esse silêncio pode parecer concordância ou tranquilidade. Por dentro, pode ser vivido como desgaste. A pessoa já não decide conscientemente, em cada reunião, que vai guardar uma frase. Certas frases deixam de lhe ocorrer como coisas que possa dizer ali.

Aquilo que fica por dizer não desaparece necessariamente. Pode regressar nas conversas entre colegas, na distância com que se passa a participar ou na forma como uma decisão é executada. Pode também continuar dentro de quem se calou, como a sensação de estar presente no trabalho sem poder estar inteiramente presente nas relações que o constituem.

Talvez não seja possível, nem desejável, dizer tudo no trabalho. A questão é outra: quando escolhemos ficar em silêncio, sentimos que poderíamos ter falado? E, quando olhamos para aquilo que deixamos por dizer, reconhecemos uma escolha nossa — ou começamos a reconhecer o lugar que aprendemos a ocupar?