Quando deixamos de saber o que queremos
Há momentos em que uma pessoa olha para a própria vida e percebe que deixou de saber claramente o que quer. Não significa necessariamente que esteja tudo mal. Pode existir uma relação, um trabalho, uma família, projetos, estabilidade. Pode até existir uma vida que, vista de fora, parece fazer sentido.
E, ainda assim, surgir uma pergunta difícil:
É isto que eu quero?
Por vezes, a dificuldade não está na ausência de possibilidades. Está precisamente no contrário: existem demasiadas coisas a pesar ao mesmo tempo. Aquilo que desejamos. Aquilo que sentimos que devemos fazer. Aquilo que os outros esperam de nós. Aquilo que construímos ao longo dos anos, aquilo que receamos perder e aquilo que já não sabemos se escolheríamos hoje.
E, no meio de tudo isso, pode tornar-se difícil perceber onde estamos nós.
Quando o “devo” se mistura com o “quero”
Muitas das escolhas que fazemos não acontecem num vazio. Crescemos dentro de famílias, relações, expectativas, circunstâncias e ideias sobre aquilo que é desejável, responsável ou possível.
Aprendemos cedo algumas coisas. O que é ser uma boa pessoa. O que significa ter sucesso. O que se espera de nós numa relação. O que devemos aguentar ou não devemos abandonar. O que seria egoísta. O que seria sensato.
Nada disto tem necessariamente de ser vivido como imposição. Muitas vezes, estas referências tornam-se tão familiares que deixam de parecer exteriores. Passam a fazer parte da forma como pensamos. É por isso que nem sempre é fácil distinguir “Eu quero isto” de “isto é aquilo que faz sentido querer”.
Durante muito tempo, essa diferença pode nem sequer colocar-se. A vida avança. Escolhemos um curso, começamos a trabalhar, construímos relações, assumimos responsabilidades, criamos hábitos. E cada escolha abre algumas possibilidades e fecha outras.
Até que, em determinado momento, aquilo que parecia evidente deixa de o ser.
Quando somos muito bons a responder aos outros
Há pessoas que se habituaram particularmente bem a perceber aquilo que é necessário. Sabem adaptar-se. Sabem cumprir. Sabem cuidar, antecipar problemas, perceber aquilo de que os outros precisam e tomar decisões.
Por vezes, esta capacidade é reconhecida e valorizada durante anos. Mas pode acontecer uma coisa curiosa. Quando a pergunta deixa de ser “O que é preciso fazer?” e passa a ser “O que queres tu?”, a resposta torna-se muito mais difícil.
Não necessariamente porque a pessoa não tenha desejos. Talvez porque passou tanto tempo a orientar-se pelas necessidades, expectativas ou reações dos outros que deixou de estar tão familiarizada com aquilo que acontece consigo.
Saber responder ao mundo e saber escutar-se não são exatamente a mesma coisa.
A vida que fomos construindo também pesa
Há ainda outra dificuldade. Quanto mais avançamos numa determinada direção, menos abstratas se tornam as escolhas. Mudar deixa de significar apenas escolher outra possibilidade. Pode significar mexer numa relação, numa família, numa carreira, numa casa, numa ideia de futuro. Pode significar desapontar alguém ou perder segurança.
Pode obrigar-nos a reconhecer que aquilo em que investimos durante anos talvez já não corresponda inteiramente àquilo que queremos.
Por isso, quando perguntamos a nós próprios “o que quero?”, a resposta nunca surge isolada. Surge acompanhada de outras perguntas: o que acontece se eu escolher isto? Quem poderá ficar magoado? O que posso perder? E se me arrepender? E se descobrir que o problema não estava na escolha, mas em mim?
Às vezes, é mais simples dizer “não sei o que quero” do que entrar verdadeiramente em contacto com todas estas possibilidades.
Nem sempre queremos uma coisa só
Também podemos ficar presos à ideia de que, se soubéssemos realmente o que queremos, a resposta seria clara. Mas a experiência humana raramente funciona assim.
Podemos querer ficar e querer partir. Querer proximidade e espaço. Querer segurança e mudança. Querer descansar e continuar a crescer. Querer uma relação e, simultaneamente, sentir falta de uma vida que parecia possível fora dela.
Estas tensões não significam necessariamente indecisão ou incoerência. Podem significar apenas que diferentes possibilidades importantes coexistem em nós. Quando procuramos eliminar demasiado depressa essa ambivalência, corremos o risco de transformar uma pergunta difícil numa decisão precipitada.
Talvez compreender o que queremos implique primeiro conseguir permanecer algum tempo junto daquilo que parece contraditório.
Por vezes sabemos primeiro o que já não queremos
Há momentos em que o desejo não aparece sob a forma de uma resposta positiva e clara. Pode aparecer através de um incómodo. De um cansaço que se repete. De uma irritação difícil de explicar. Da sensação de estarmos sempre a fazer aquilo que seria esperado. Da inveja inesperada da vida de alguém. De uma espécie de alívio quando imaginamos que determinada obrigação desaparece.
Ou simplesmente da sensação: “Não quero continuar exatamente assim.”
Isso ainda não nos diz para onde ir. Mas já diz alguma coisa. Talvez seja importante não exigir imediatamente ao desconforto uma solução. Por vezes, reconhecer aquilo que deixou de nos servir é o primeiro movimento de uma mudança que ainda não conseguimos nomear.
Querer não é o mesmo que ter a certeza
Talvez uma das maiores dificuldades esteja na expectativa de que uma escolha verdadeira deveria trazer consigo certeza. Mas querer alguma coisa não significa necessariamente sentir-se seguro.
Podemos escolher e continuar com medo. Podemos perceber uma direção e continuar com dúvidas. Podemos desejar uma mudança e lamentar aquilo que deixamos. As escolhas importantes raramente eliminam todas as outras possibilidades sem custo. Escolher também significa renunciar.
E talvez seja por isso que, às vezes, esperamos demasiado tempo por uma certeza que nunca chegará. Não porque não saibamos nada sobre aquilo que queremos. Mas porque gostaríamos que querer viesse acompanhado da garantia de que não vamos perder, magoar-nos ou arrepender-nos.
Escutar aquilo que foi ficando para trás
Perceber o que queremos pode não passar por encontrar uma resposta escondida dentro de nós. Pode começar de forma muito mais simples.
Reparar naquilo que nos aproxima e naquilo que nos afasta. Naquilo que fazemos com entusiasmo e naquilo que fazemos sempre em esforço. Nos momentos em que sentimos que estamos a corresponder e naqueles em que sentimos que estamos realmente presentes. Nas escolhas que fazemos porque queremos e naquelas que fazemos sobretudo porque não conseguimos imaginar desapontar alguém.
Nem sempre encontramos imediatamente uma conclusão. Mas talvez possamos começar a distinguir melhor as vozes. Aquilo que aprendemos, aquilo que devemos, aquilo que receamos, aquilo que os outros esperam. E aquilo que, por vezes de forma ainda hesitante, parece verdadeiramente nosso.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas “O que quero?”, mas também:
“Quando digo que não sei o que quero, será que não sei mesmo — ou será que ainda não consigo distinguir, no meio de tudo o que me habituei a ouvir, aquilo que é meu?”