Quando já não reconhecemos a vida que construímos
Há momentos em que uma pessoa olha para a própria vida e sente uma estranheza difícil de explicar. Não significa necessariamente que tudo esteja mal. Pode existir estabilidade, uma família, uma relação, um trabalho, uma casa, uma rotina construída ao longo de anos. Pode existir até uma vida que, vista de fora, parece coerente.
E, ainda assim, surgir uma sensação desconcertante: “Como é que vim parar aqui?”
Nem sempre é arrependimento. Nem sempre existe vontade clara de mudar. Por vezes, há apenas a impressão de que a vida continua a ser nossa, mas já não nos é inteiramente familiar.
A vida vai-se construindo enquanto a vivemos
Raramente escolhemos a nossa vida de uma só vez. Ela vai sendo construída através de decisões sucessivas. Algumas muito pensadas. Outras quase inevitáveis. Outras tomadas porque, naquele momento, pareciam fazer sentido.
Escolhemos um percurso, começamos uma relação, aceitamos um trabalho, mudamos de casa, assumimos responsabilidades. E cada decisão passa a fazer parte do contexto da decisão seguinte. Aos poucos, aquilo que começou por ser uma possibilidade transforma-se numa história.
É por isso que podemos chegar a determinado momento sem conseguir identificar uma escolha concreta que tenha sido errada e, ainda assim, sentirmos que alguma coisa deixou de encaixar. A vida não precisa de ter corrido mal para deixar de nos parecer inteiramente nossa.
Aquilo que fez sentido pode deixar de fazer
Há uma expectativa difícil de abandonar: a ideia de que, se escolhemos bem, aquilo que escolhemos deveria continuar a fazer sentido. Mas nós mudamos. As relações mudam. O trabalho muda. Aquilo a que dávamos importância aos vinte, trinta ou quarenta anos pode não ocupar o mesmo lugar mais tarde.
Uma escolha pode ter sido verdadeira num determinado momento e deixar de o ser da mesma maneira. Isso não a transforma necessariamente num erro. Talvez apenas revele que não permanecemos iguais à pessoa que a fez.
Esta possibilidade pode ser difícil de aceitar. Porque rever aquilo que construímos pode parecer uma forma de negar o passado. Como se reconhecer que hoje queremos outra coisa significasse admitir que todos os anos anteriores foram desperdiçados.
Mas talvez não seja assim. Uma vida pode ter feito sentido durante muito tempo e deixar de fazer da mesma forma. As duas coisas podem ser verdadeiras.
Quando cumprimos aquilo que era suposto
Por vezes, a estranheza surge precisamente depois de termos conseguido aquilo que procurávamos. Terminámos o curso. Conseguimos o emprego. Construímos uma carreira. Criámos uma família. Comprámos uma casa. Chegámos a uma posição que durante anos parecia representar segurança, realização ou sucesso.
E então acontece algo inesperado. A chegada não produz necessariamente aquilo que imaginávamos. Pode surgir satisfação, claro. Mas também pode surgir uma pergunta: “E agora?”
Durante anos, a direção esteve relativamente clara. Era preciso chegar. Quando chegamos, deixamos de ter o movimento que nos orientava e ficamos mais disponíveis para olhar para aquilo que foi construído. E nem sempre reconhecemos completamente a pessoa que chegou.
O desconforto de não ter uma razão suficiente
É mais fácil compreender uma crise quando existe uma causa evidente. Uma perda. Uma separação. Um problema profissional. Uma doença. Um conflito. Mais difícil é quando nada de extraordinário aconteceu.
A pessoa pode sentir-se insatisfeita e, ao mesmo tempo, pensar: “Não tenho razões para me sentir assim.” “Tenho tudo para estar bem.” “Há pessoas em situações muito piores.” “Não devia queixar-me.”
Esta comparação pode tornar a experiência ainda mais solitária. Porque não só existe desconforto como passa a existir também a sensação de que esse desconforto é ilegítimo. Mas a experiência não se torna menos real por não existir uma explicação dramática.
Às vezes, aquilo que nos perturba não é uma catástrofe. É uma perda gradual de reconhecimento.
Quando a vida começa a funcionar sem nós
Há rotinas que se tornam tão estabelecidas que quase deixam de exigir decisão. Levantamo-nos. Trabalhamos. Levamos alguém a algum lado. Respondemos. Organizamos. Resolvemos. Planeamos a semana seguinte.
A vida funciona. E precisamente por funcionar tão bem pode passar algum tempo até repararmos que estamos pouco presentes nela. Não porque tenhamos deixado de fazer coisas. Mas porque fazemos cada vez mais a partir do que é necessário e cada vez menos a partir daquilo que sentimos.
Podemos tornar-nos extremamente competentes a manter uma vida que já não sabemos se continuaríamos a escolher. Esta experiência não significa necessariamente que seja preciso abandonar essa vida. Mas talvez signifique que vale a pena voltar a encontrá-la.
Aquilo que não aconteceu também faz parte da nossa vida
Chegar a determinada idade ou momento pode também tornar mais visíveis as vidas que não vivemos. A profissão que não escolhemos. A relação que terminou. O lugar onde não fomos viver. Os filhos que tivemos ou não tivemos. As oportunidades que recusámos. As pessoas que deixámos para trás.
Durante muito tempo, essas possibilidades podem ter permanecido abstratas. Mais tarde, algumas começam a adquirir um carácter diferente. Percebemos que certas escolhas já não estão disponíveis da mesma maneira. E podemos sentir uma espécie de saudade não apenas do que aconteceu, mas também daquilo que poderia ter acontecido.
Isso não significa necessariamente querer outra vida. Pode significar apenas reconhecer que escolher uma vida implica deixar outras por viver. E que essas possibilidades também fazem parte da pessoa que somos.
Mudar ou voltar a olhar?
Quando deixamos de reconhecer a nossa vida, é tentador pensar que a resposta tem de ser uma mudança. Mudar de trabalho. Terminar uma relação. Ir viver para outro lugar. Começar de novo.
Por vezes, uma mudança pode ser necessária. Mas nem sempre o primeiro movimento precisa de ser esse. Talvez seja importante perceber antes o que deixou exatamente de nos ser familiar. É a vida que mudou? Fomos nós? Existe algo de importante que foi ficando sem espaço? Estamos cansados? Estamos a viver demasiado em função dos outros? Ou começámos simplesmente a olhar de outra maneira para aquilo que sempre esteve ali?
Nem toda a estranheza exige uma rutura. Às vezes, exige apenas que deixemos de viver em piloto automático tempo suficiente para perceber o que está a acontecer.
Existe ainda outra possibilidade difícil: podermos mudar sem transformar a nossa história numa acusação contra nós próprios. É fácil olhar para trás com o conhecimento que temos hoje e pensar: “Devia ter percebido.” “Devia ter escolhido diferente.” “Perdi demasiado tempo.”
Mas a pessoa que tomou aquelas decisões não tinha a experiência que temos agora. Escolheu a partir das possibilidades que conseguia ver, daquilo que desejava, receava ou conhecia naquele momento. Talvez olhar para a própria vida não implique decidir se foi certa ou errada. Talvez implique tentar compreender como foi possível chegar até aqui. E, a partir daí, perguntar o que ainda pode ser escolhido.
Voltar a habitar a própria vida
Reconhecer uma vida como nossa não significa necessariamente gostar de tudo aquilo que contém. Talvez signifique poder encontrarmo-nos nela. Perceber quais foram as nossas escolhas. Quais foram as circunstâncias. Aquilo que ainda queremos preservar. Aquilo que já não conseguimos viver da mesma maneira. E aquilo que talvez precise de mudar.
Por vezes, não precisamos de uma vida completamente diferente. Precisamos de voltar a estar presentes na vida que temos. Outras vezes, ao olhá-la com mais atenção, percebemos que alguma coisa já não pode continuar igual.
Não existe uma resposta única. Mas talvez exista uma pergunta importante: quando olho para a vida que construí, ainda consigo encontrar-me nela? E, quando isso se torna difícil, o que preciso de compreender para voltar a reconhecê-la como minha?