A diferença entre trabalhar com pessoas e trabalhar ao lado de pessoas
Há equipas onde tudo parece funcionar. As pessoas conhecem as suas responsabilidades, cumprem prazos, partilham informação e sabem a quem recorrer quando precisam de alguma coisa. As reuniões são produtivas, os projetos avançam e os resultados aparecem. Vistas de fora, são equipas que trabalham bem em conjunto.
E, no entanto, pode acontecer que as pessoas que as constituem quase não se conheçam. Sabem quem resolve determinado problema, quem responde mais depressa, quem é particularmente exigente ou quem consegue manter a calma nas situações difíceis. Mas sabem pouco sobre aquilo que preocupa os colegas, sobre a forma como vivem o trabalho ou sobre o que lhes acontece quando alguma coisa deixa de correr bem.
Não significa necessariamente que exista um problema. Podemos trabalhar durante anos com pessoas de quem gostamos e respeitamos, sem desenvolver com elas uma relação particularmente próxima. Nem todas as relações profissionais precisam de se transformar em amizades.
Mas talvez exista uma diferença importante entre trabalhar com outras pessoas e sentir que fazemos parte de alguma coisa com elas. E essa diferença nem sempre se torna visível enquanto tudo continua a funcionar.
Quando conhecemos sobretudo aquilo que os outros fazem
Grande parte das relações profissionais constrói-se em torno de necessidades concretas. Procuramos alguém porque precisamos de uma informação, de uma decisão, de uma opinião ou de ajuda para resolver um problema. É natural que assim seja. O trabalho exige coordenação e uma parte importante da confiança entre colegas nasce precisamente da experiência de podermos contar uns com os outros.
Com o tempo, vamos construindo uma imagem das pessoas a partir daquilo que fazem. Sabemos que determinado colega é rigoroso, que outro encontra soluções rapidamente, que alguém tem facilidade em lidar com situações difíceis. Aprendemos a reconhecer competências, estilos de trabalho e formas de reagir.
Mas conhecer a maneira como alguém trabalha não significa necessariamente conhecer a forma como essa pessoa vive aquilo que faz.
Um colega pode ser sempre disponível e estar profundamente cansado. Pode transmitir segurança nas reuniões e atravessar um período de grande dúvida. Pode continuar a cumprir todas as suas responsabilidades enquanto começa a sentir que já não encontra sentido no trabalho.
Nada disto tem necessariamente de ser partilhado. Há aspetos da nossa experiência que preferimos manter privados, e essa reserva merece ser respeitada. A questão talvez não esteja naquilo que sabemos sobre os outros, mas na possibilidade de existir uma relação onde algumas dessas coisas possam encontrar lugar, quando se torna importante partilhá-las.
Porque há uma diferença entre sermos conhecidos pelo que conseguimos fazer e sentirmos que os outros também nos conseguem reconhecer quando não estamos na nossa melhor versão.
Estar em contacto não significa necessariamente encontrar-se
Esta diferença entre colaborar e conhecer verdadeiramente as pessoas com quem trabalhamos pode tornar-se particularmente visível quando os encontros são cada vez mais organizados em torno de tarefas concretas. O trabalho híbrido é um exemplo, embora não seja o único.
A possibilidade de trabalhar a partir de diferentes lugares trouxe maior autonomia, flexibilidade e, para muitas pessoas, melhores condições de concentração e de conciliação entre diferentes dimensões da vida. Mas também pode alterar a forma como as relações se constroem.
Quando grande parte dos encontros acontece através de reuniões agendadas, mensagens ou chamadas com um objetivo definido, é natural que a comunicação se organize sobretudo em torno daquilo que precisa de ser resolvido. Entramos numa reunião para discutir um projeto. Contactamos um colega para esclarecer uma dúvida. Trocamos mensagens para acompanhar uma tarefa. Terminamos a conversa quando o assunto fica tratado.
Podemos passar o dia inteiro em contacto com outras pessoas e, ainda assim, sentir que quase não estivemos verdadeiramente com ninguém.
Não é necessariamente a tecnologia que produz esta experiência. Também podemos passar oito horas num escritório, rodeados de colegas, e manter relações quase exclusivamente funcionais. Da mesma forma, é possível construir relações próximas e significativas com pessoas que raramente encontramos presencialmente.
Talvez a diferença esteja menos no lugar onde trabalhamos e mais naquilo que acontece quando estamos juntos. Se os encontros servem apenas para coordenar aquilo que fazemos ou se também permitem que alguma coisa da nossa experiência encontre espaço na relação.
Aquilo que acontece entre as tarefas
Há momentos da vida profissional que dificilmente aparecem num plano de trabalho. Uma conversa que se prolonga depois de uma reunião. Um comentário feito enquanto se espera por um café. A oportunidade de perceber que um colega está preocupado, mesmo sem ele o dizer diretamente. Uma troca de impressões sobre uma dificuldade que ainda não sabemos exatamente como formular.
Nem sempre estes momentos produzem alguma coisa imediatamente identificável. Podem até parecer interrupções num dia ocupado. Mas é muitas vezes através deles que começamos a conhecer os outros para além da função que desempenham.
Percebemos como alguém pensa quando ainda não tem uma resposta. Descobrimos que uma pessoa aparentemente segura também tem dúvidas. Reconhecemos preocupações semelhantes às nossas. Ou simplesmente começamos a sentir que existe alguma familiaridade que não depende de termos um assunto profissional para tratar.
Estas experiências não podem ser inteiramente planeadas. Podemos criar oportunidades de convívio, organizar encontros presenciais ou reservar momentos para conversas informais. Mas a existência dessas ocasiões não garante, por si só, que alguma relação se construa.
Talvez porque o encontro não dependa apenas de estarmos disponíveis no mesmo momento. Depende também da forma como nos aproximamos, daquilo que conseguimos mostrar e da possibilidade de sermos recebidos sem termos de corresponder sempre a uma determinada imagem.
Ser necessário não é o mesmo que sentir que pertencemos
O trabalho oferece-nos muitas formas de reconhecimento. Podemos ser procurados pela nossa competência, valorizados pelo contributo que damos e respeitados pela maneira como assumimos responsabilidades. Sentir que somos necessários pode ser uma experiência importante. Dá-nos um lugar, uma função e a possibilidade de perceber que aquilo que fazemos tem significado para outras pessoas.
Mas existe uma diferença entre sermos necessários e sentirmos que pertencemos.
Podemos ser indispensáveis para o funcionamento de uma equipa e, ainda assim, sentir que a nossa presença importa sobretudo pelo que conseguimos assegurar. Os colegas procuram-nos, reconhecem o nosso trabalho, agradecem a disponibilidade e confiam naquilo que fazemos.
No entanto, se deixarmos de estar tão disponíveis, se atravessarmos uma dificuldade ou se, por algum motivo, já não conseguirmos corresponder da mesma maneira, podemos começar a perguntar-nos que lugar continuamos a ter.
Esta pergunta nem sempre aparece de forma consciente. Por vezes, surge apenas como uma sensação de distância. Estamos integrados no funcionamento da equipa, mas não sabemos se existe alguém com quem possamos falar quando aquilo que nos preocupa não cabe facilmente numa conversa sobre trabalho.
E talvez seja precisamente nesses momentos que a diferença se torna mais clara.
Uma pessoa pode atravessar uma fase difícil e continuar a participar em todas as reuniões. Pode sentir-se desmotivada sem que isso se reflita imediatamente nos resultados. Pode estar a pensar sair da organização e continuar a ser vista como alguém plenamente comprometido.
Os outros não têm necessariamente forma de saber o que está a acontecer. E a própria pessoa pode não querer partilhá-lo. Mas faz diferença sentir que, se precisasse de o fazer, existiria alguém a quem se poderia dirigir.
Talvez a pertença não dependa de estarmos constantemente próximos dos outros. Talvez dependa também de sabermos que a relação não desaparece quando, por momentos, deixamos de ter alguma coisa para oferecer.
Quando a equipa continua a funcionar
Uma das particularidades desta experiência é que pode permanecer invisível durante muito tempo.
Uma equipa onde as relações são sobretudo funcionais pode continuar a apresentar bons resultados. As pessoas colaboram, resolvem problemas e cumprem aquilo que lhes é pedido. Não existem necessariamente conflitos, queixas ou sinais evidentes de mal-estar.
Por vezes, é apenas quando alguém sai que nos apercebemos da distância que existia. Trabalhámos durante anos com aquela pessoa, partilhámos projetos, atravessámos períodos exigentes e acompanhámos diferentes momentos da organização. E, no entanto, descobrimos que sabemos relativamente pouco sobre aquilo que a levou a partir ou sobre o que aquela experiência de trabalho significou para ela.
Outras vezes, a distância torna-se visível quando surge uma dificuldade que exige mais do que competência técnica. Um conflito que não se resolve apenas com uma reunião. Um colega que precisa de apoio. Uma decisão que exige confiança para além da distribuição habitual de responsabilidades.
Nesses momentos, aquilo que sustentava a colaboração pode revelar-se insuficiente. Não porque as pessoas sejam incapazes de trabalhar juntas, mas porque trabalhar juntas e construir uma relação não são exatamente a mesma coisa.
Isto não significa que todas as equipas devam procurar maior proximidade pessoal. Há relações profissionais que funcionam bem precisamente porque respeitam distâncias, limites e diferentes necessidades de autonomia. E há pessoas para quem o trabalho não é, nem precisa de ser, um lugar privilegiado de pertença.
Talvez a questão não esteja em exigir que as pessoas se tornem mais próximas, mas em perceber se existe espaço para que uma relação possa acontecer para além daquilo que cada uma tem de fazer.
Passamos uma parte significativa da nossa vida a trabalhar. Ao longo desse tempo, encontramos pessoas com quem partilhamos responsabilidades, preocupações, conquistas e dificuldades. Algumas tornam-se importantes para nós. Outras permanecem sobretudo associadas a determinados momentos, funções ou projetos.
Não existe uma única forma de viver estas relações. Mas talvez faça diferença saber que, quando atravessamos uma dificuldade, quando precisamos de ser escutados ou quando deixamos de conseguir corresponder àquilo que habitualmente esperam de nós, continuamos a poder encontrar um lugar entre as pessoas com quem trabalhamos.
Talvez seja por isso que a diferença entre trabalhar com pessoas e trabalhar ao lado de pessoas nem sempre se revele naquilo que conseguimos realizar em conjunto.
Pode revelar-se antes quando, por algum motivo, deixamos de conseguir corresponder àquilo que os outros esperam de nós.
Nesses momentos, continuamos a sentir que temos um lugar entre aquelas pessoas — ou descobrimos que esse lugar dependia sobretudo daquilo que conseguíamos oferecer?